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Um estudo com participação da Universidade Federal do Ceará (UFC) revela um cenário desafiador para a saúde mental de povos indígenas no estado. A pesquisa analisou a cobertura da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e indicadores de saúde mental em municípios cearenses com e sem populações indígenas, apontando um paradoxo: localidades com maior presença de serviços apresentam, ao mesmo tempo, indicadores mais elevados de sofrimento psíquico.
Os pesquisadores levantaram dados dos 184 municípios cearenses. Naqueles com populações indígenas aldeadas (que correspondem a 9,24% do total) há maior concentração de equipamentos e serviços de saúde mental. Cerca de 47% deles contam com Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) e 29,4% com Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CapSi) – percentuais que caem para 9,7% e 4,5%, respectivamente, em municípios sem indígenas.

Apesar da maior estrutura, os indicadores de saúde mental são mais graves nessas localidades. A mediana de óbitos por suicídio é o dobro em áreas indígenas, assim como são mais elevadas as taxas de tentativas de suicídio por intoxicação exógena e os registros de violência interpessoal e autoprovocada. Os dados indicam que a ampliação da rede, por si só, não tem sido suficiente para garantir cuidado efetivo. "Muitas vezes ter mais equipamentos não se traduz em uma oferta de serviço qualificada, focando na perspectiva da prevenção e promoção da saúde mental", comenta um dos autores do estudo, James Ferreira Moura Junior, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFC.
De acordo com os pesquisadores, esse cenário evidencia limites de um modelo de atenção ainda centrado em abordagens pouco sensíveis às especificidades culturais, territoriais e coletivas dos povos indígenas. O estudo aponta a necessidade de participação ativa indígena na formulação das políticas públicas, formação intercultural de profissionais e valorização das práticas tradicionais de cuidado.
Eles destacam ainda que fatores históricos, como a violência colonial, racismo estrutural e negação de direitos, especialmente o acesso ao território, continuam impactando diretamente a saúde mental dessas populações. "Esse é um processo que se expressa por meio do apagamento cultural, da deslegitimação dos modos de vida indígenas, do racismo estrutural e da negação sistemática de direitos, sobretudo o direito ao território", afirma a pesquisadora Rosa Pitaguary, liderança do povo Pitaguary e coordenadora de Políticas Públicas na Secretaria dos Povos Indígenas do Governo do Estado do Ceará (Sepince).
Veja mais dados e informações na matéria completa sobre a pesquisa no site da Agência UFC, veículo de divulgação científica da universidade.
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