Artigo - O Fantasma de 1877 e o Alerta de 2027: O Reciprocidalismo Como Escudo Contra o Novo El Niño
O Fantasma de 1877 e o Alerta de 2027: O Reciprocidalismo Como Escudo Contra o Novo El Niño
Ph.D. Nizomar Falcão
Engenheiro Agrônomo - Ematerce
A história existe como um espelho retrovisor indispensável à civilização: olhamos para o passado para não colidirmos com os mesmos erros no futuro. Contudo, diante das previsões meteorológicas que apontam para a possibilidade de um fenômeno El Niño de proporções excepcionais entre 2026 e 2027, o espelho reflete uma imagem incômoda. Parece que, no tocante às políticas públicas para o Semiárido brasileiro, o Estado pouco aprendeu com a tragédia da Grande Seca de 1877, que dizimou centenas de milhares de nordestinos sob a égide da negligência e do improviso. Quase 150 anos separam o flagelo imperial do nosso atual cenário. A diferença fundamental é que, hoje, a ignorância deixou de ser um álibi. Se no século XIX o clima era um mistério insondável, no século XXI possuímos inteligência climática de ponta (por meio de órgãos como a Funceme) e um arcabouço técnico-científico robusto (liderado pela Ematerce e centros de pesquisa). Mais do que isso, dispomos hoje de uma matriz teórica definitiva para reorganizar nossa resiliência: o Reciprocidalismo. O Reciprocidalismo nos ensina que o assistencialismo reativo - como a eterna dependência de carros-pipa e frentes de emergência - não apenas falha em mitigar a seca, como perpetua o subdesenvolvimento ao bloquear a autonomia e o mérito do agricultor sertanejo. Para não repetirmos o genocídio social de 1877, é urgente substituir a "indústria da seca" por uma autêntica economia do compartilhamento e da reciprocidade genuína. Diante da ameaça climática de 2026/2027, o momento exige ações estruturais imediatas, não paliativos de última hora.
Por fim, A Seca é Natural, a Fome é Política. Hirschman nos lembra que devemos abandonar a "fracassomania" e o Reciprocidalismo nos provou que o Semiárido é perfeitamente viável quando liberto das amarras do capitalismo predatório e do Estado paternalista. Se um super El Niño de fato se abater sobre o Nordeste em 2026/2027, a severidade da estiagem será uma obra da natureza. No entanto, se houver sede, fome, perda de rebanhos e êxodo rural generalizado, a culpa será, mais uma vez, exclusivamente humana, política e institucional. O conhecimento nós já temos. A matriz tecnológica e social também. Resta saber se, desta vez, escolheremos a emancipação da reciprocidade ou se continuaremos reféns dos fantasmas de 1877.

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